#26: é preciso morrer para viver?
A morte ensina?
Minha vó (Vóvs Leitora) teve uma “mãe de leite”. Nem sei se existe isso mais, mas antigamente era bem comum. Quando a mãe não conseguia amamentar, uma outra mulher, que teve filho na mesma época e, por isso, produz leite, amamentava o bebê.
Como a vida é um emaranhado de grandes relações e coincidências (?), futuramente, a sobrinha da “mãe de leite” da minha avó foi trabalhar em sua casa, vamos chamá-la de Fay. Após 30 anos de serviço doméstico, ela viu a família nascer e crescer. Ajudou a criar meu pai e meus tios, viu cada neto dos meus avós evoluírem. A relação de confiança que vinha de outras gerações, só foi se fortalecendo.
Há alguns anos, ela se aposentou e voltou para sua cidade natal, ao lado da minha. Continuou visitando toda a minha família. Ligações semanais e muitos presentes em forma de comida, como uma boa mineira gosta de fazer. Quitandas, doces e tudo de mais gostoso feito com carinho para cada membro.
Quando minha avó adoeceu, em novembro de 2025, foi internada no dia 21. E assim, como mais uma coincidência (?) da vida, Fay também adoeceu e foi internada. Elas adoeceram juntas, ao mesmo tempo.
Nós estávamos lidando com uma situação delicada com minha avó e preocupados com Fay, que estava a mais de 400km daqui. Como ser apoio quando a gente nem sabe lidar com tudo que nos acontece? Como ser apoio quando o desespero interno é tão forte que arrebenta cada parte do nosso ser? Não foi um período fácil. Quando Fay fez os exames, meu pai, médico, já logo nos avisou: “é metástase e está espalho por todo o corpo. O prognóstico não é bom.” Enquanto isso, os exames da minha avó nem mesmo podiam ser realizados, tamanha era a delicadeza de seu quadro. Não sabíamos direito a causa da sua má saúde, mas também havia a suspeita do maldito câncer. Meu pai logo avisou também: “o prognóstico não é bom.”
Eu passei os dias inteiros de CTI em total processo de negação. Não gostava de escutar nada de ninguém. Meu pai sempre tentava me avisar, até mesmo para me preparar, mas eu o acusava: “você não sabe de nada, você vai ver, ela vai curar.” Minha irmã, quase médica, me encarava com olhos de piedade diante da minha completa negação. Lembro de a questionar diversas vezes: “tem solução, né?”, e encarar seu olhar passivo e lamentável. Mas, para mim, não interessava, nada nunca abalava Vóvs. Quando conversávamos sobre Fay, eu só ignorava a informação. “Gente, é só fazer uma quimio, uma cirurgia, não?”. Vai ver assim, ignorando a ciência da verdade, nada estaria acontecendo.
Eu acompanhava muito Vóvs durante a noite. “Dormia” com ela, e podia observar aquele quadro tão desconjuntado do que ela havia me ensinado como vida. Ali, eu vivi, presenciei e senti tudo que dava para ser. Em minha negação, mantinha firme a ideia certa de que ela sairia dali em pouco tempo. A cada procedimento e exame, eu pegava os resultados e comparava cada número, procurando algum peogresso. A cada sinal de melhora (em minha visão não médica) eu dizia: “viu só, ela está sarando”. Mas os olhares de piedade e medo não paravam.
Não era nem mesmo um dia de cada vez. Era um momento de cada vez. havia dias que ela amanhecia bem e, no entardecer, a piora chegava. Um jogo de cintura com a esperança, que ora nos acolhia, ora nos repelia. E, de repente, a morte a sugou. Foi como se tudo evaporasse. O caminho da esperança sumiu. Foi aspirada, do nada, de repente. Meu otimismo de nada adiantou. Cada força que eu coloquei em sua melhora sumiu de repente. PUF!
Vivemos os processo de praxe e ainda lutando por Fay, tentando trazê-la para BH. A transferência só deu certo no começo deste mês. Perto de nós, ela ganha força e se alimenta da esperança. Ela não sabe o que tem, a situação é delicada e os médicos já disseram que não tem o que fazer, é apenas dar a ela um fim digno. O famoso cuidados paliativos. Na semana em que ela chegou, fui visitá-la.
Além do choque e dos gatilhos, não pude evitar em similar as minhas duas experiências com a pré-morte.
Com Vóvs, senti que a morte foi como um vulto que nos encarava no canto do quarto, mostrava sua presença, se aproximava e recuava, brincava com nosso desespero. Um pega-pega infantil. Quando chegou, foi de repente, cansou de esperar e, quando se decidiu, entrou como se o ambiente fosse dela, puxou Vóvs pelos braços e a levou. Rapidamente a tomou para si, como se tivesse perdido a paciência com toda aquela ladainha. Com sua capa preta, aninhou Vóvs embaixo dos braços e sumiu pelo mundo, em menos de 10s. Foi um sopro. Um decisão que tomou impulsivamente e tirou Vóvs de nós.
Com Fay, sinto que esperamos pela morte. Estamos todos de braços cruzados, esperando a visita que não chega, evidentemente, se atrasou. Mas ela pode chegar a qualquer momento, pode ser quando todos estivermos distraídos e já acostumados com a rotina da espera. Então, ela vai chegar. Ou, quem sabe, quando todos estivermos em alerta no aguardo, nervosos, ela aparecerá. Não há esperança, não há possível solução, não há um futuro aqui. A morte é certa, ela está só se arrumando. Ela não está no canto do quarto nos observando. Está em nosso consciente nos atormentando.
E ela chegou.
Escrevi esse texto até aqui antes dela chegar. A cada dia que passa construo uma relação de curiosidade com a morte. Acho que a única forma de entendê-la é a partir da vida, é vivendo que se entende o que é o morrer. Morremos a cada dia, a cada momento, a cada fase e vivência. Começamos novamente todos os dias. É sempre um recomeço.
Nos últimos meses da minha vida, perdi 3 pessoas, uma ainda em vida. Perder o outro é sempre perder uma parte de nós. Perdi crenças que eram inabaláveis, perdi razão, perdi força, perdi esperança, perdi ânimo e alegria. Ao mesmo tempo, ganhei força, aprendizados, vivências e esperança. Mesmo que seja uma esperança da própria morte, ainda sim é uma esperança.
Tento encontrar razões para todas essas perdas. O que preciso entender e aprender sobre a vida? Por que tantas perdas de uma só vez? Não sei se existe um motivo ou se o construímos para ter algum acalento no peito para ajudar a enfrentar tantas dores. Sei que venho procurando ou criando essas razões, para ter um pouco de conforto e tentar ver a vida como algo menos cruel. “Às vezes não tem motivo, só está acontecendo”, como me disse uma das minhas melhores amigas. Me questiono se a ausência de motivo não tornaria a vida em si sem motivo. Deve ter algo que não estou enxergando, devo precisar desnublar as razões…
Ouso dizer que ainda mais frustrante que a própria perda e o próprio luto são as justificativas dadas: “ela descansou”, “foi o tempo dela partir, todo mundo tem o seu”.
Nesse compasso, começo a me ver afundando na literatura, mais uma vez. Leio 4 livros ao mesmo tempo, não sei como, mas é a minha fuga comum. Dentre eles, “ciranda de pedra”, o título eleito para resumir minha última sessão de terapia.
Nele, Virgínia diz:
“ele lhe falara no quanto era bela a morte e contudo continuava vivo”.
O descanso significa, para mim, a perda. Me gera raiva por precisar ainda estar aqui, vivenciando infinitos descansos que ainda acontecerão ao meu lado. É hora de partir, mas continuam vivos. É hora de descansar, mas continuam aqui. A morte é o alívio das dores? Mas é também, a dor em si.
“— Que é que você entende por morrer?
A pergunta fê-la vacilar. Levou o polegar à boca e ficou passando a ponta da língua na unha roída. Morrer, morrer... Pensou em Isabel, a irmã gêmea de Margarida. Tinha morrido um mês depois da primeira comunhão e todas as alunas do catecismo foram vê-la. Estava vestida de branco, com a coroa de lírios de pano no alto da cabeça e um ramo de jasmins na mão. Parecia mais branca e tão satisfeita no seu caixão cor-de-rosa que ninguém tinha vontade de chorar ao vê-la assim. “É a vontade de Deus”, dizia a mãe assoando-se no lenço limpo, nesse dia tudo pareceu-lhe mais limpo e mais calmo naquele porão. Também a morte lhe pareceu uma coisa clara. Simples. Era a vontade de Deus. “E essa é uma vontade forte”, pensou. Mas havia a andorinha que sepultara certa manhã numa caixa de sapatos, debaixo do pessegueiro: desenterrara-a alguns dias depois para ver o que havia acontecido. Aquilo era a morte.
— Os bichos comem a gente.”
Seria mais que isso? O que nos faz buscar a razão? É desde a vontade forte de Deus até os bichos nos comendo? O que há no meio desses extremos?
Sinceramente, não sei. Ainda elaboro tudo que vivo para tentar entender como tudo me alcança e esse parece ser um trabalho eterno, sem fim, sem resultado. Um esforço necessário até a morte. Elaborar, elaborar, elaborar…
Do que sei até agora é que “Viver é muito perigoso”, já dizia Riobaldo em “Grande Sertão: veredas”. Nessa pequenas veredas vamos caminhando, sem certeza de nada, mas suspeitando de muito.
Links úteis:
Livro “Grande sertão: veredas”




Amiga, primeiramente, sinto muito pelas suas perdas, me compadeço da sua dor, que, apesar de semelhante, sempre é diferente. E quero te dizer: COMO VOCÊ ESCREVE BEM! Como é bom acompanhar amigos leitores e saber que vai ler um bom texto deles <3