#23: você tem FOMO?
a sua vida é mais imprevisível do que parece
Uma vez eu escrevi aqui sobre padronização dos estilos e personalidades desde que começou a onda aesthetic. O que mais vejo nas redes sociais são reproduções de estilos e jeitos, pouca personalidade própria e bastante comercialização de um jeito de ser. Tipo aquela onda do clean girl aesthetic, sabe?
Eu amo o nicho que atuo, que é o literário, mas é meio sufocante ver tanta gente querendo ser igual. Claro, não só no meu nicho, tenho a completa certeza de que isso acontece em outras áreas da vida.
Me incomoda escutar o discurso de precisar ser igual ou de querer alcançar uma estética que simplesmente não é sua de forma natural. Me incomoda ver tanta gente que tem tanto potencial para mostrar o jeito especial de ser, mas quer se encontrar no que mais bomba na internet. Todo esse aesthetic que vemos por aí nada mais é que o capitalismo dominando todas as pequenas veias do processo. Agir e ter personalidade própria, se vestir da forma como melhor de expressa não é bom para o sistema. É exatamente o contrário que o sistema almeja. Pessoas sendo iguais, comprando coisas iguais, construindo estéticas iguais. Menos personalidade e mais padronização, porque é isso que vende.
E acho que, a partir daí, as coisas começam a se misturar de uma forma surreal. Vejo uma necessidade de confundir a própria vida e a realidade com a do outro de uma forma bizarra. Explico.
Nem todo mundo está no mesmo patamar e objetivo de vida. Em relação ao meu instagram, por exemplo, sigo pessoas que tem o objetivo de simplesmente se divertir criando conteúdo e sigo outras que de fato trabalham com isso. A padronização do estilo começa a invadir a padronização e o desejo de ser o outro, um desejo tão forte de ter a outra realidade que uma acaba se misturando com a outra.
Acredito que entender de si e voltar para o lugar que de fato ocupa é a melhor forma de deixar de se comparar e querer acompanhar uma realidade que não é sua. Isso gera o famoso FOMO (fear of missing out), que é o medo de estar perdendo algo. Toda vez que fazemos uma escolha, automaticamente renunciamos outra e essa é a vida, esse é o grande jogo, entender para onde vamos e viver em paz com o que deixou de ser.
Contudo, o negócio tem tomado outra proporção. Quando os estilos de vida se padronizam e se misturam, o desejo da realidade do outro aumenta e, consequentemente, vem a FOMO dominando. Às vezes você não pode estar, não pode arcar, não tem vontade de ir, mas ver o padrão estando, indo e querendo faz com que você sinta que está perdendo, mesmo o que você nem queria, entendeu?
Uma das editoras que sou parceira fez um convite para estar na abertura da Bienal dia 12/06, dois dias antes da minha chegada. Logo, eu não estarei no RJ, avisei que não vou a esse evento de abertura da Bienal. Queria? Claro! Especial demais! Vai ter muito criador de conteúdo que admiro lá? Sem dúvida eles também foram chamados! Mas é aí que entra o processo de sair da realidade padrão da bolha e voltar a própria realidade. Eu estou desempregada, eu não trabalho financeiramente com isso, eu não posso arcar com o custo de mais dois dias no RJ… vai doer perder essa oportunidade? Quando eu penso no tanto de gente que estará lá e eu não, sim, vai doer. Mas quando eu penso se eu realmente gostaria de ir, entendo que não vai doer tanto. Não ganho financeiramente para estar lá, na verdade, eu literalmente só vou gastar, é um evento que, para mim, com minha atuais preocupações, não sanará nenhuma delas e tenho a grande certeza de que 8 dias no RJ para a Bienal já são mais que suficiente.
Essa semana me contaram uma história parecida com essa. A pessoa com FOMO gigante ao pensar nas pessoas que estariam no evento e ela não. Será que, de fato, você QUER ir ou só não quer perder o que todo mundo vai viver aquilo menos você? E isso te diminui, invalida ou te fará lembrar com preocupação daqui 1 ano? Provavelmente não.
É literalmente a sensação de estar perdendo uma vida e experiências melhores do que a que você já está propriamente vivendo. Além disso, a sensação de perder coisas que você não necessariamente quer, mas DEVERIA querer. E eu acredito que essa ideia do deveria querer vem justamente da padronização no estilo de vida.
Achar que estar perdendo algo importante é de fato já perder algo importante, mas na própria vida!
FOMO não é coisa da internet, é científico, sabia? Foi criado em 2004 por Patrick J. McGinnis e é pesquisado por vários cientistas, porque não é uma sensação atual, mas foi intensificada com as redes sociais.
Está diretamente relacionado com a ideia de que o conteúdo que a gente consome certamente foi um dos melhores momentos da vida do outro, que experenciou coisas tão legais das quais você não fez parte. Mas vem cá, quantas fotos sorrindo você já não tirou quando, na verdade, estava prestes a morrer de chorar? No final das contas, a vida está acontecendo fora das telas.
Atrelado a isso, escutei um podcast essa semana que falava sobre o desvio do caminho ser de fato o caminho. A gente quer tudo perfeito o tempo todo, a gente quer estar e viver tudo ao mesmo tempo (olha a FOMO aí), a gente foca na realidade do outro enquanto vai deixando a própria vida de lado, os próprios objetivos, aqueles sonhos de vida…
Mas uma outra situação tão ruim quanto a FOMO é estar preso em uma realidade que claramente não é boa, mas não conseguir sair por medo da incerteza. Pode ser a realidade do trabalho, de um relacionamento, seja o que for. Aquela situação que é confortável só porque você já se acostumou com ela, mas de fato ela é ZERO confortável. Na verdade, é a pior situação que você poderia aceitar.
A gente quer TANTO uma estabilidade que aceita pouco, aceita relacionamentos tóxicos, trabalhos tóxicos e contextos que desvalorizam a troco de sentir que está cumprindo ou seguindo um caminho certeiro que já foi preparado para você por toda a sociedade. Estabilidade essa que simplesmente não existe, porque a vida é completamente imprevisível. E mais vale o risco da incerteza do que seguir o caminho da zona de conforto que não está nem um pouco confortável.
Se tem uma coisa que eu aprendi na vida é que estabilidade não existe. Tudo pode acontecer a qualquer momento. Todos tendem a entender a necessidade da estabilidade como financeira, mas há também a estabilidade sentimental e amorosa.
A gente não sabe o que pode acontecer e essa é a graça da vida, deixar que ela seja o que ela de fato é, sabe? Estar aberto para o que realmente precisamos viver.
Acho que isso tem muito a ver com o FOMO, porque muitas vezes passamos por cima do que de fato desejamos para viver o que outros vivem com aquele medo de estar perdendo algo especial, mas e o que a vida está preparando especialmente para você? E o que de legal pode estar prestes a acontecer com você mesmo e não com o outro?
Eu tenho certeza que você tem alguma história de quando planejou algo, tudo - aparentemente - deu errado e você acabou parando em um caminho que era até melhor que o que havia planejado. Percebeu que o “dar errado”, na verdade, foi de fato dar certo!
E a vida tem dessas, sabe? Estar sempre surpreendendo, acontecendo, reunindo, instigando e nos transformando. A vida é o que ela é e acontece o que tem que acontecer. Estar preso na realidade “confortável” (que sabemos não ser) ou na realidade do outro faz com que você perca a sua própria realidade!
Minhas semanas têm começado no mesmo esquema: o começo da semana eu me torturo mentalmente kkkkk brincadeiras à parte. A síndrome da impostora tem me contaminado de uma forma surreal, sempre no começo da semana!
Nos primeiros dias eu estou sempre me diminuindo, pensando o pior e pensando o que não deveria. Os dias vão acontecendo e coisas boas vão surgindo, bons sentimentos, boas notícias e a pitada de esperança. A autoestima vai aumentando e eu vou deixando a síndrome um pouco mais de lado.
Nesses piores dias, sempre penso o quanto é difícil ter uma vida adulta que, sinceramente, às vezes nem sinto ter. Apesar de todas as responsabilidades e acontecimentos da vida adulta, eu continuo presa a uma expectativa de uma vida irreal, de sonhos, que fica apenas no patamar de um sonho. Tenho medo de ser um adulto que dá trabalho para outros adultos. Essa foi a pauta de uma conversa com uma das minhas melhores amigas essa semana. O ruim da vida adulta é que você pode seguir tentando sem parar, tentar infinitamente, mas a maior parte das coisas estão completamente fora do nosso controle e a gente só precisar saber e aprender a lidar com isso.
Essa amiga está há algum tempo procurando trabalho em sua área e a gente sempre compartilha das mesmas aflições. É MBA, pós-graduação, mestrado, cursos de tudo quanto é tipo, o currículo completo, o portfólio cheio e um tanto de vaga que não dá nem retorno. É angustiante, mas acredito que a vida também é feita de espera.
A espera por dias e notícias melhores que, fico feliz em dizer, chegam!
Ah! Para diminuir um pouco toda essa ansiedade e trazer a criatividade para a vida, comecei a pintar minha primeira tela grande!
A inspiração é uma foto que eu tirei em Ubatuba em 2024, no dia que vi tartarugas livres no mar, se alimentando de algas nas pedras do cais.
Essa dia me marcou. Eu chorei de emoção de ver a beleza da vida de uma forma tão pura e elegante.
Pintar um quadro é aprender a gostar (ou pelo menos ter paciência) com processos! O tema da última newsletter! É difícil para mim, mas eu gosto de pintar. Então, tem sido um grande exercício de entender que o todo é feito em pequenas partes. Pequenas partes e passos que podem dar errado, mas depois é só a gente esperar um pouco e consertar!




